fbpx meritocracia – afinal, o conceito de que o mérito leva ao sucesso é real ou um mito? - Renata Spallicci

RENATA SPALLICCI

Carreira

06/08/2019

A meritocracia é um mito?

Entenda por que acreditar cegamente na meritocracia pode ser um risco à justiça

Sou uma pessoa que sempre acreditou na meritocracia e a utilizou como um parâmetro de justiça em minha atuação como executiva. Mas, ultimamente, algumas leituras fizeram com que eu começasse a questionar este símbolo de igualdade e justiça… E são essas reflexões sobre o tema que gostaria de compartilhar com vocês. Afinal, a meritocracia existe ou é apenas um mito? 

O mérito demonstra o sucesso?

A meritocracia tornou-se um importante ideal social. Os políticos de todo o espectro ideológico retornam continuamente ao tema de que as recompensas da vida – dinheiro, poder, empregos, admissão na universidade – devem ser distribuídas de acordo com a habilidade e o esforço. Conceitual e moralmente, a meritocracia é apresentada como o oposto de sistemas como a aristocracia hereditária, na qual a posição social é determinada pela loteria de nascimento. Sob a meritocracia, a riqueza e a vantagem são a justa remuneração do mérito, não a fortuna inesperada de eventos externos.

No Reino Unido, 84% dos entrevistados da Pesquisa de Atitudes Sociais afirmaram que o trabalho duro é “essencial” ou “muito importante”, quando se trata de progredir. E o Brookings Institute descobriu que 69% dos americanos acreditam que as pessoas são recompensadas pela inteligência e habilidade. Os entrevistados dos dois países creem que fatores externos, como a sorte e ser integrante de uma família rica, são muito menos importantes. Embora essas ideias sejam mais pronunciadas nesses dois países, elas são populares em todo o mundo, inclusive aqui no Brasil

Mas, segundo o economista norte-americano Robert Frank, autor do livro “Success and Luck” (Sucesso e sorte), esta relação entre mérito e sucesso é falsa. Em seu livro, ele demonstra que os planos e coincidências que levaram à ascensão de Bill Gates como fundador da Microsoft, se baseiam tanto na sorte quanto no mérito. “Isso não é negar a indústria e o talento de pessoas de sucesso. No entanto, demonstra que a ligação entre o mérito e o resultado é tênue e indireta, na melhor das hipóteses.”

De acordo com Frank, isso é especialmente verdadeiro, quando o sucesso em questão é grande, e o contexto no qual ele é alcançado é competitivo. “Certamente há programadores quase tão hábeis quanto Gates, que, no entanto, não conseguiram se tornar a pessoa mais rica da Terra. Em contextos competitivos, muitos têm mérito, mas poucos conseguem. O que separa os dois é a sorte.”

E, além de ser relativamente falsa, um crescente corpo de pesquisa em Psicologia e Neurociência sugere que acreditar na meritocracia torna as pessoas mais egoístas, menos autocríticas e ainda mais propensas a agir de maneira discriminatória.

Por outro lado, pesquisas sobre gratidão indicam que lembrar o papel da sorte aumenta a generosidade.

Outro fator ainda mais perturbador é o que demonstra que, simplesmente considerar a meritocracia como um valor, parece promover um comportamento discriminatório.

O acadêmico de administração Emilio Castilla, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, e o sociólogo Stephen Benard, da Universidade de Indiana, estudaram tentativas de implementar práticas meritocráticas, como a remuneração baseada em desempenho, em empresas privadas. Eles descobriram que, nas empresas que explicitamente consideravam a meritocracia como um valor central, os gerentes atribuíam maiores recompensas aos empregados do sexo masculino do que às funcionárias do sexo feminino, com avaliações de desempenho idênticas. Essa preferência desapareceu quando a meritocracia não foi explicitamente adotada como valor.

Isso é surpreendente, porque a imparcialidade é o cerne do apelo moral da meritocracia. A “igualdade de condições” pretende evitar desigualdades injustas baseadas em gênero, raça e afins. No entanto, Castilla e Benard descobriram que, ironicamente, as tentativas de implementar a meritocracia levam apenas aos tipos de desigualdades que ela pretende eliminar. Eles sugerem que esse “paradoxo da meritocracia” ocorre porque a adoção explícita da meritocracia como um valor convence os sujeitos de sua própria boa-fé moral. Satisfeitos, porque são justos, se tornam menos inclinados a examinarem seu próprio comportamento em busca de sinais de preconceito.

“A meritocracia é uma crença falsa e não muito salutar. Como acontece com qualquer ideologia, parte de seu atrativo é justificar o status quo, explicando por que as pessoas pertencem à determinada ordem social. É um princípio psicológico bem estabelecido pelo qual as pessoas preferem acreditar que o mundo é justo”, explicam.

Uma boa ilusão

Mas então não devemos acreditar na meritocracia?Cauteloso com as palavras, Frank responde que a crença de que tudo depende de mérito é, sim, um mito, mas um “bom mito”, já que pode ser uma poderosa fonte de motivação. 

“Às vezes acreditar que vitórias e derrotas são sempre justas traz motivação para as pessoas perseguirem seus objetivos, porque elas acham que o sucesso virá com o esforço. Começa quando os pais dizem aos seus filhos: “Só depende de você! Se você trabalhar duro, o sucesso virá naturalmente!” Não é bem verdade, mas é bom acreditar nisso.Experimentos psicológicos revelam que a crença na meritocracia é estranhamente adaptativa. Quando as pessoas têm sucesso, elas atribuem a vitória às suas forças e qualidades. Quando fracassam, elas dizem que foi por falta de sorte. 

Curiosamente, isso é ótimo para elas. Quando você justifica o seu fracasso pela falta de sorte, não ficará desmotivado e tentará outras vezes. Da mesma forma, quando você atribui seu sucesso exclusivamente às próprias competências, você continuará aceitando novos desafios, porque acredita que tem tudo o que precisa para aquilo dar certo. Essa é a postura ideal para perseverar.”

Abraçar a ilusão de que o sucesso está atrelado ao mérito, e não à sorte, pode ser bastante útil quando você está numa fase difícil da carreira. Afinal, qualquer pessoa terá mais ânimo para lutar por um emprego, superar adversidades e evoluir profissionalmente, se acreditar que tudo depende apenas dela.

No entanto, opina o professor, acreditar plenamente na lógica da meritocracia só é útil — e defensável — para quem ainda não chegou lá. “Profissionais altamente bem-sucedidos devem ser os primeiros a reconhecerem o papel da sorte para as suas vidas.” Segundo ele, diversos estudos comprovam que a maioria das histórias de sucesso, especialmente de sucesso estrondoso, foi favorecida pela sorte, isto é, por fatores externos independentes do talento ou do esforço de cada pessoa. “Veja a história de Bryan Cranston, o ator principal da série “Breaking Bad”. O produtor Vince Gilligan queria que ele fosse o protagonista Walter White, mas até aquele momento Cranston não era um ator muito conhecido. Seu único papel mais relevante havia sido numa sitcom chamada “Malcolm in themiddle”, transmitida pela  TV a cabo. 

Ele era um bom ator, mas a maioria do público nunca tinha ouvido falar dele. Os chefes do estúdio não queriam um ator desconhecido. Convidaram Matthew Broderick e John Cusack, mas ambos recusaram. Só depois das negativas desses dois famosos é que o estúdio resolveu oferecer o papel para Cranston. Desde então, o rosto dele virou sinônimo de Walter White e “BreakingBad”.  Agora, se Matthew Broderick e John Cusack não tivessem recusado o papel, hoje Cranston não seria um dos atores mais bem-sucedidos de sua geração. Ele é muito talentoso e dedicado, mas chegou à glória por fatores independentes de sua vontade. “É o que acontece com centenas de outros atores que não despontaram, apesar de terem qualidades semelhantes às dele”.

Em contrapartida, Frank admite que são raros os casos de pessoas que se deram muito bem exclusivamente à base de sorte. “Se você quer realizar algo, precisa tentar, porque não dá para realizar muita coisa por acidente. É uma conjunção de múltiplos fatores que determina o curso dos acontecimentos. Nesse sentido, talento e trabalho duro continuam sendo fundamentais.”

E complementa: “Meu único conselho para quem quer vencer na carreira é ser bom em alguma coisa e trabalhar muito. Se não fizer isso, é quase certo que você não conseguirá o que quer. De resto, basta torcer para ter sorte, mas isso obviamente é incontrolável.” 

E, para você, a meritocracia é um mito ou algo que realmente tem a sua razão de ser?

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Rê Spallicci

Renata Spallicci

Atleta profissional fisiculturismo WBFF, executiva, empresaria, coach, influenciadora digital, escritora, palestrante motivacional e realizadora social fundadora do movimento Fit do Bem.

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