fbpx Renata Spallicci - mulheres-coronavirus– mulheres são mais afetadas pelos efeitos da pandemia. Que medidas podem ser tomadas para impedir aumento da desigualdade.

Mulheres e a crise da COVID-19

RENATA SPALLICCI

Saúde

20/04/2020

Mulheres e a crise da COVID-19

Relatório da ONU aponta para a necessidade de uma maior rede de proteção às mulheres durante pandemia. Gênero é o mais afetado pela crise.

12 min de leitura

A pandemia da COVID-19 afeta a todos indiscriminadamente no globo terrestre. Mas os seus reflexos são diferentes na sociedade, em virtude de diversos fatores: classe social, idade e gênero.

Sim, apesar de os homens representarem entre 60% e 80% dos mortos pela Covid-19, as mulheres são afetadas socialmente de maneira mais intensa pelo novo coronavírus (Sars-CoV-2).

Isso porque elas estão mais expostas ao risco de contaminação e às vulnerabilidades sociais decorrentes da pandemia, como desemprego, violência, falta de acesso aos serviços de saúde e aumento da pobreza.

Relatório da ONU

Relatório da ONU

Esta é a conclusão do relatório “Mulheres no centro da luta contra a crise Covid-19”, divulgado pela ONU Mulheres, entidade da Organização das Nações Unidas para igualdade de gênero e empoderamento.

Em resumo, segundo o estudo, a pandemia afeta mais as mulheres porque:

  • 70% dos trabalhadores de saúde em todo o mundo são mulheres, fato que as expõe a um maior risco de infecção pelo novo coronavírus;
Relatório da ONU
  • com o isolamento, os índices de violência doméstica e feminicídio têm aumentado no mundo – como as mulheres estão confinadas com seus agressores e distantes do ciclo social, riscos para elas são cada vez mais elevados;
  • entre os idosos, há mais mulheres vivendo sozinhas e com baixos rendimentos;
  • mulheres são maioria entre os empregados de setores industriais da economia formal, diretamente afetados pela quarentena, como os de turismo e restaurantes;
  • mulheres também são maioria em vários setores de empregos informais, como trabalhadores domésticos e cuidadores de idosos;
  • com a pandemia, mulheres têm de se dividir entre diversas atividades, como as seguintes: emprego fora de casa, trabalhos domésticos, assistência à infância (cuidado com filhos), educação escolar em casa (já que as escolas estão fechadas) e assistência a idosos da família;
  • antes da Covid-19, mulheres desempenhavam três vezes mais trabalhos não remunerados do que os homens; com o isolamento, a estimativa é que este número triplique;
  • mulheres não estão na esfera de poder de decisão na pandemia: elas são apenas 25% dos parlamentares em todo o mundo e menos de 10% dos chefes de Estado ou de Governo;
  • e, no setor têxtil, um dos mais afetados da indústria em todo mundo e paralisado por causa do temporário fechamento de lojas, as mulheres são três quartos dos trabalhadores a nível global.

Medidas especiais

Por conta disso, a ONU Mulheres recomenda uma série de medidas específicas nas ações contra o coronavírus, como apoio prioritário para mulheres que atuam na contenção da doença, acordos de trabalho flexíveis para mulheres e proteção de serviços essenciais de saúde para mulheres e meninas, entre outras.

“A maioria das profissionais de saúde são mulheres, o que as coloca em maior risco. Muitas delas também são mães e cuidadoras de familiares. Elas continuam carregando a carga de cuidados, que já é desproporcionalmente alta em tempos normais. Isso coloca as mulheres sob considerável estresse”, disse Phumzile Mlambo-Ngcuka, diretora-executiva da ONU Mulheres.

“Além disso, a maioria das mulheres trabalha na economia informal, no qual o seguro de saúde provavelmente não existe ou é inadequado, e a renda não é segura. Como elas não estão direcionadas para ajuda financeira, acabam não tendo suporte. Este não é simplesmente um problema de saúde para muitas mulheres; isso vai ao cerne da igualdade de gênero”, analisou a dirigente.

Dados no Brasil

Dados do Brasil

Recomendações aos países

Experiências recentes de outras doenças, como Ebola e Zika, mostraram que esses surtos desviam recursos dos serviços de que as mulheres precisam, mesmo quando a carga de cuidados aumenta e os meios de subsistência sofrem perdas. Um exemplo é a diminuição no acesso a cuidados de saúde pré e pós-natal e contraceptivos, quando os serviços de saúde estão sobrecarregados.

Outro ponto de atenção é que o risco de violência tende a aumentar quando famílias em contextos de violência familiar são colocadas sob tensão, autoisolamento e quarentena. Relatórios de algumas comunidades impactadas estão mostrando que a COVID-19 está conduzindo tendências semelhantes no momento.

Também há evidências de que os impactos econômicos da COVID-19 afetarão mais as mulheres, já que mais mulheres trabalham em empregos mal remunerados, inseguros e informais. As restrições de movimento podem comprometer a capacidade das mulheres de ganhar a vida e atender às necessidades básicas de suas famílias, como foi visto na crise do Ebola.

“A ONU Mulheres está trabalhando com parcerias para garantir que o impacto de gênero da COVID-19 seja levado em consideração nas estratégias de resposta nos níveis nacional, regional e global”, disse Sarah Hendriks, diretora de Políticas, Programas e Divisão Intergovernamental da ONU Mulheres.

“Isso inclui o apoio à análise de gênero e à coleta de dados desagregada por sexo, para que as necessidades e realidades das mulheres não caiam no buraco, mesmo quando estamos tentando obter mais dados e conhecimento sobre a COVID-19. Também estamos focando em programas que construam a resiliência econômica das mulheres para este e futuros choques, a fim de que elas tenham os recursos necessários para si e suas famílias”, explicou Sarah Henfriks.

Na China, por exemplo, a ONU Mulheres está se concentrando em soluções de recuperação econômica para apoiar pequenas e médias empresas pertencentes a mulheres, a fim de mitigar o impacto econômico negativo do surto. A ONU Mulheres também apoiou campanhas de divulgação para promover a liderança e as contribuições das mulheres na resposta a COVID-19, atingindo mais de 32 milhões de pessoas.

À medida  que ocorre o fechamento de escolas e creches para conter a disseminação do novo coronavírus, a capacidade das mulheres de se envolverem em trabalho remunerado enfrenta barreiras extras. Globalmente, as mulheres continuam sendo remuneradas 16% menos que os homens, em média, e a disparidade salarial sobe para 35% em alguns países. Em tempos de crise como este, as mulheres geralmente enfrentam a opção injusta de desistir do trabalho remunerado para cuidar de crianças em casa.

Dentro desse contexto, a ONU Mulheres emitiu um conjunto de recomendações, colocando as necessidades e a liderança das mulheres no centro de uma resposta eficaz ao COVID-19:

– Garantir a disponibilidade de dados desagregados por sexo, incluindo taxas diferentes de infecção, impactos econômicos diferenciais, carga de atendimento diferenciado e incidência de violência doméstica e abuso sexual;

– Incorporar as dimensões e as pessoas especialistas em gênero nos planos de resposta e nos recursos orçamentários para incorporar a experiência em equipes de resposta;

– Fornecer apoio prioritário às mulheres na linha de frente da resposta, por exemplo, melhorando o acesso a equipamentos de proteção individual para mulheres e produtos de higiene menstrual para profissionais de saúde e prestadores de cuidados de saúde, e acordos de trabalho flexíveis para mulheres com uma carga de cuidados;

– Garantir voz igual para as mulheres na tomada de decisões na resposta e no planejamento de impacto em longo prazo;

– Garantir que as mensagens de saúde pública sejam direcionadas adequadamente às mulheres, incluindo as mais marginalizadas;

– Desenvolver estratégias de mitigação que visem especificamente ao impacto econômico do surto nas mulheres e desenvolver a resiliência das mulheres;

– Proteger serviços essenciais de saúde para mulheres e meninas, incluindo serviços de saúde sexual e reprodutiva;e
– Priorizar os serviços de prevenção e resposta à violência de gênero nas comunidades afetadas pela COVID-19.

Faça a sua parte

Mas não são somente os governos e empresas que podem ajudar neste momento para não aumentar a desigualdade de gêneros e a pressão sobre as mulheres. Em nosso dia a dia, todos podem contribuir para que a força da pandemia não pese sua mão ainda mais sobre as mulheres. Ainda segundo a ONU, algumas atitudes são essenciais neste sentido:

1.Compartilhe os cuidados em casa

As mulheres realizam três vezes mais tarefas domésticas e trabalho não remunerado do que os homens. Enquanto mais e mais pessoas e famílias estão isoladas em suas casas para impedir a propagação da COVID-19, as responsabilidades com os cuidados estão sempre em alta.Cabe a toda família compartilhar o cuidado: o apoio a crianças por meio de ensino à distância ou a pessoas idosas e vulneráveis, cozinhar, limpar e administrar as famílias.

2. Conheça os fatos da COVID-19

Embora as pessoas estejam se ajustando às novas normas e processam a ansiedade e a preocupação ante a  pandemia, é muito importante conhecer todos os fatos e impedir a disseminação de informações erradas.Obtenha informações de fontes confiáveis ​​e de especialistas.

3. Leia, assista, ouça e compartilhe histórias de mulheres

Mantenha-se em segurança com tarefas e aprenda mais sobre feminismo enquanto fica em casa. Leia um livro feminista que reflita como as experiências das mulheres ao redor do mundo são realmente diversas.

4. Fale sobre a igualdade de gênero com sua família

Distanciamento social significa que o lar se torna uma escola para muitas famílias em todo o mundo. Adicione feminismo ao currículo. Converse sobre igualdade de gênero com sua família, amigos e amigas – especialmente crianças, meninos e meninas.

Conversando com as crianças sobre igualdade entre todos os sexos e o que ainda precisa ser feito para alcançarmos um mundo igual, você as prepara para liderar o caminho para um futuro melhor para todas as pessoas.

5. Continue seu ativismo on-line

Em todo o mundo, as mulheres estão sendo desproporcionalmente afetadas pelo impacto social e econômico da crise do novo coronavírus, o que exacerba as desigualdades de gênero já existentes.

6. Apoie a causa

As mulheres foram duramente atingidas pela COVID-19, pois constituem 70% das pessoas do setor social e de saúde em todo o mundo que trabalham e estão na linha de frente da resposta. Mais mulheres trabalham na economia informal e em empregos com salários mais baixos, e elas têm menos meios de se ajustar às dificuldades em suas vidas. Quando as famílias são colocadas sob pressão, a violência doméstica geralmente aumenta, assim como a exploração sexual. A COVID-19 provavelmente está impulsionando tendências semelhantes no momento.

7. Eduque-se

O distanciamento social e a autoquarentena significam mais tempo para aprender. Sobre igualdade de gênero em emergências à infraestrutura, faça um dos cursos on-line gratuitos e de ritmo individual da ONU Mulheres.Enquanto você está em distanciamento social, aproveite a oportunidade para aprender sobre mulheres artistas que foram negligenciadas ao longo da história e continuam subvalorizadas

8. Ajude a salvar vidas

Há muitas maneiras de você se conectar à sua comunidade enquanto está em distanciamento social. Pratique a solidariedade social, com distância física!O que quer que você esteja passando agora, saiba que há alguém passando por experiências semelhantes, tentando se ajustar a esse novo normal.Apoiar as pessoas ao seu redor e ficar perto da sua comunidade pode ajudar a permanecer forte enquanto ajuda as outras pessoas.

9. Cuide de sua saúde mental

Priorizar a saúde mental é importante durante períodos de alto estresse. Defina um lembrete para dar um tempo nas notícias. Encontre momentos de felicidade se conectando com amigos, amigas e familiares, relaxando e praticando a atenção plena.

Como a pandemia da COVID19 está mantendo a maioria das pessoas longe de pessoas amadas, é completamente normal sentir ansiedade, exclusão ou se sobrecarregar com as responsabilidades profissionais ou familiares. Lembre-se, você não está sozinha, sozinho. Estamos juntas e juntos nisso. Nós vamos superar isso! Juntas e juntos!!

Como todos sabem, sou uma defensora da igualdade de gêneros e, por isso, neste momento, acredito que seja essencial que todos nós estejamos atentos também a esta questão. Espero que esta matéria tenha sido relevante neste sentido para todos vocês!

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Rê Spallicci

Renata Spallicci

Atleta profissional fisiculturismo WBFF, executiva, empresaria, coach, influenciadora digital, escritora, palestrante motivacional e realizadora social fundadora do movimento Fit do Bem.

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